Os Desastres do Amor nasce de uma adaptação e colagem de algumas peças ou diálogos de Marivaux: L'Amour et la Verité, Le chemin de la Fortune, La Réunion des Amours, Félicie e partes de Le Cabinet du Philosophe. São precisamente estes os motes desta peripécia: o amor e a verdade na busca da felicidade, um encontro entre Amores e as reflexões filosóficas acerca de tudo isto.
Marivaux foi criticado por ter o Amor como tema único das suas comédias. O autor não o nega, diz antes que não há nada de monótono ou uniforme no conflito do amor consigo próprio e na diversidade de maneiras com que por ele é abordado.
Se é certo que as suas peças vivem mais do diálogo do que do desenrolar de uma acção, é através de subtis camadas do discurso que se percebe a riqueza do seu estilo, esse marivaudage, apontado como a metafísica do amor, que serve de capa à análise do comportamento humano.
Foi neste estudo do comportamento humano que Luís Miguel Cintra quis pegar ao construir este espectáculo, considerando que deve ser esse o objectivo do teatro e do trabalho de actores.
Diz também o encenador que sentiu necessário com este espectáculo contrariar o “esvaziamento cultural” que agora se vive, povoando-o de referências culturais que lhe são queridas, mesmo acreditando que parte do público actual possa não as compreender. As referências publicitárias que vão aparecendo ao longo do espectáculo são disso exemplo.
| Luis Santos |
A encenação é complexa e assenta sobretudo no poder dos diálogos carregados de metáforas contraditórias. É fácil ao espectador menos atento perder-se na mudança dos nomes das personagens, na panóplia de línguas presentes, no regresso à mitologia e a algumas dissertações filosóficas menos evidentes.
Assistimos várias vezes às personagens a serem público umas das outras em sintonia connosco, como se estivessem a avaliar de fora o conflito que elas próprias viverão.
Vemos também a humanização dos deuses romanos, eles têm tiques, trejeitos, dúvidas, inseguranças e birras entre si. Caíram do Olimpo para um resort de luxo, onde lidam com a vulnerabilidade humana, alguns deles acabando por sucumbir ao Escrúpulo ou à Ganância.
| Luis Santos |
Os actores mostram um trabalho irrepreensível num estilo afectado e artificial, também apontado como característica do próprio Marivaux na sua obra.
De salientar o trabalho da oralidade de Nuno Nunes, Dimitri, e Vítor D’Andrade, como Apolo, que acaba por ser a marca das suas personagens.
Os apontamentos mais cómicos do espectáculo são construídos por Luís Miguel Cintra, aqui nas personagens de Dom Cupidom, o amor adulto, e Redondinho, protagonista de mais um momento musical. Apesar de, como habitualmente, muito bem conseguidos, ficamos com o desejo de o ver dar mais espaço de construção de cena às outras personagens, é por vezes a dar a cena que se brilha nela.
| Luis Santos |
O cenário e figurinos, de Cristina Reis, são também ricos em metáfora, simbologia, apesar dos apontamentos de abstracção como o fosso para a Fortuna ou os mausoléus das virtudes.
Os momentos musicais, apesar de servirem sobretudo para aligeirar a cena, servem também o intuito mais emocional e introspectivo de personagens e espectadores.
| Luis Santos |
É um espectáculo que nos dá o Amor em conflito consigo próprio por ser símbolo da loucura, desejo e liberdade, ao mesmo tempo que é ternura, pureza e idolatria.
Há o Escrúpulo, que enquanto guarda o caminho da honra, da consciência e da culpa, é ele próprio a morte de algumas virtudes.
Há finalmente a Fortuna ou a procura dela, que nos confunde, por não sabermos se está na virtude enquanto construção ou na moral que nos deveria ser simples e inerente.
Fica-nos a ideia de que o Homem é o responsável por si próprio, é ele que se constrói em cada escolha, é ele que tem o poder de construir o mundo e não o contrário.


Apesar de não ter visto este espectáculo,felicito-te pela análise que fazes.Como já vi outros espactáculo encenados pelo Luís Miguel Cintra,inclusivamente aquele que ele está a encenar agora("Ilusão") e no qual participo,como sabes,percebo que é de facto o estilo muito próprio deste encenedor/actor.Pois lá estão também as referências/alusões às figuras míticas da Antiguidade Clássica(sobretudo grega).
ResponderEliminarQuanto aos outros espectáculos que são objecto de comentários teus,não me pronuncio,por não os ter visto.
ResponderEliminarObrigada pelo comentário Insano e bom trabalho!
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