Num cantinho escuro

Espelho. Ambas são Joana e ambas não são. Às vezes não sabem o que estão ali a fazer e nós também não. Estamos num mundo escuro, numa realidade estranha meio orwelliana em que uma voz dá instruções sobre o que se deve fazer e parece vigiar tudo o que se faz. Joana ainda sabe que se chama Joana, ainda consegue recusar-se a algumas coisas, ainda quer lutar, mas já não se lembra que país veio salvar, numa rebuscada aproximação à primeira, a d'Arc.



Num cenário despido e abstracto, estão duas pessoas vestidas de igual e ainda não sabemos se elas são ou não a mesma pessoa, porque todo o resto da cena indica um espelho imperfeito.
No desenrolar da acção percebemos que ambas as actrizes são Joana Dark à vez, uma delas é também a voz e prisioneira da voz, à vez, e a própria voz parece ser uma delas ou já ter transformado uma delas, em si.

Temos uma Joana que não quer comer a sopa, como todos nós já conhecemos da infância, mas aqui a delicadeza e a leveza infantis são substituídas por gritos e agressividade para os quais nem sempre percebemos a justificação. Há uma enxurrada de palavras a demonstrar até que ponto uma pessoa pode tornar-se um autómato e isso transmite-nos uma estranheza, um incómodo por nos poder ser familiar do mundo em que vivemos. Tecnicamente, este momento foi prejudicado pelo eco da sala, que dificultava a nossa percepção e dava a ideia de uma má dicção da actriz.

As criadoras do espectáculo, Anna Carvalho, Linda Valadas e Rita Leite, inspiraram-se na realidade actual, onde vemos hoje muitos a recusar-se a comer a sopa que lhes é imposta, mesmo não sabendo bem que sopa quereriam comer. Há uma revolta latente contra o que nos impõem: metade de nós acaba por explodir e mandar a sopa pelos ares, parte desses sabe ainda pelo que luta, outros nem tanto; outra metade prefere continuar sem pensar, sem questionar.



Toda a performance é esteticamente interessante, culminando nas cenas finais em que a bandeira portuguesa, veste de uma das actrizes, contrasta com o vestido virginal da outra, a lembrar a donzela mártir que ainda luta, apesar de já não se lembrar por quê.

A música de cena, de Luis Soldado, é um muito feliz apontamento que nos põe alerta e que nos dá um sentimento mais cinematográfico, envolve-nos no que vemos no palco.

No final, a Joana, cada versão dela, insiste, põe-se à nossa frente e grita-nos sem palavras: vais continuar a lutar mesmo que não acredites ou vais quebrar e comer a sopa que escolheram para ti?
Quanto a mim, é zugzwang: ambas são más, mas há que jogar.



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Meet The Author

Rita Branco Jardim é actriz de formação e escritora de inspiração. Começando pelos diários adolescentes e pelos embaraçosos concursos de escola, foi crescendo enquanto escrevia poesia, prosa poética e pequenas peças de teatro. Autora de blogs pessoais e culturais, criou o Sobre as Cenas, inicialmente apenas ligado à crítica de teatro mas que quer agora estar mais aberto a outro tipo de textos: os avulsos. Neste momento, escreve no Sobre as Cenas sobre teatro e o que mais lhe der na real gana. Bem-vindos ao Sobre as Cenas!